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Índia – Dezembro de 1988

Chegámos a Nova Deli provenientes de Kathmandu
.
A primeira constatação foi as mochilas abertas e saqueadas.


Dava mais trabalho protestar e solicitar o seguro do que o valor a recuperar. 
Por outro lado, apesar de ser a meio do dia, o aeroporto estava praticamente vazio.
O escritório de turismo também estava fechado. O mesmo se passava com outros locais de atendimento ao público.


O único balcão aberto era o dos câmbios e foi com imensa preguiça que o funcionário nos trocou os dólares por rupias.

Resistimos à insistência dos taxistas e fomos de autocarro para o centro, a Connaught Place..


O pica bilhetes foi simpático. Garantiu que nos avisava quando da paragem próximo do hotel Marina (foi todo reformulado e hoje é o Radisson Blu Marina). 

Assim foi mas, recusámos o hotel. O preço era muito superior ao indicado no guia.
Com a mochila às costas, passámos a tarde à procura de hotel e deu para conhecer a parte central de Nova Deli. 

O cansaço obrigou-nos a deixar as mochilas no hotel Palace (foi também reformulado e nem parece o mesmo). Estava bem situado, com uma varanda fantástica devido à vista mas as instalações eram péssimas e sem qualquer segurança.

 

YWCA

 

 

Com as indicações do guia descobrimos uma residencial mas, mais uma vez, as condições não eram sedutoras. 
Um turista tentou-nos convencer mas não foi suficiente.


Já exaustos e de noite, acertámos com uma outra sugestão do guia. 
Depois de algum tempo conseguimos arranjar um quarto na YWCA Blue Triangle Family Hostel. Não era nada de mais mas tinha um quarto amplo e asseado. Fizemos a reserva para vários dias e custou 256 rupias. Barato. Quase três décadas depois, a entrada continua a mesma mas os quartos sofreram uma melhoria considerável.

Fomos ao Palace buscar as mochilas. No regresso a percepção da cidade foi diferente. Havia muito menos gente nas ruas e muitos eram sem abrigo. Outros vendiam amendoins nas paragens de autocarro e para se protegerem do frio acendiam fogueiras.


A cidade deixava de ser frenética mas, ao mesmo tempo, dominavam os sinais de pobreza.



O dia seguinte foi passado com burocracias. Quase todas as deslocações foram a pé. Nova Deli foi das cidades onde fizemos mais caminhadas e Janpath uma das avenidas mais percorridas.

Era imperiosa a confirmação com antecedência da viagem para o Sri Lanka.
A burocracia da Air Índia obrigou-nos a descobrir o edifício moderno, de vários andares, onde ficava a sede. Como a segunda parte da viagem era na Air Lanka tivemos de fazer nova confirmação. Agora, nos dias de hoje percebe-se como a internet superou muitos destes inconvenientes de quem viaja.
T
ambém tivemos de ir à estação dos caminhos de ferro. Ficava em Old Deli, numa longa avenida que ia desembocar na Connaught Place. Nesta praça, durante o dia, vagueavam centenas de pessoas. 
Nada faziam ou aguardam turistas para os transportarem até à estação. Riquechós, motorizadas e carros a cavalo eram os meios de transporte.


Conforme se entrava em Old Deli, aumentavam os sinais de pobreza, com mendigos e ruas e casas degradadas. 
A sujidade no chão era proporcional. 

A grande confusão foi na entrada da estação dos caminhos de ferro. 
O interior era menos mau e tinha um balcão só para turistas. Mas os procedimentos eram os locais. Burocracia, preenchimento de formulários...e, claro, longas filas.


Taj Express
Taj Express

A primeira classe dos comboios tinha ar condicionado. Na segunda classe os preços eram cerca de 90% mais baratos. A proporção era inversa no que se refere aos ocupantes e ao espaço disponível para cada passageiro.  

Não foi fácil conseguir bilhetes para as classes mais caras. 

Na estação encontrámos uma portuguesa, professora em Macau, que se preparava para uma longa viagem em segunda classe. Não conseguiu bilhete para a primeira classe mas estava contente no início da aventura. Já tinha sofrido um dissabor num hotel de 5 estrelas em Nova Deli. Desapareceu-lhe um casaco. Protestar, protestar, foi o método que utilizou e que lhe ia servir de experiência nesta viagem.


A nossa missão foi cumprida. Conseguimos bilhetes de ida e volta para Agra em datas que eram razoáveis no Taj Express. 
Os dois bilhetes custaram 226 rupias.

Terminada a burocracia, o resto do dia foi a passear pela cidade. 


O almoço foi no hotel Marina e ficou registada uma sobremesa com incenso.



A digestão foi na Janpath. É uma longa avenida repleta de lojas e barracas nos passeios. Vestuário, tecidos, bijouterias, peles, artesanato... um sem fim de produtos que tornava a avenida como um mercado ao ar livre e um dos pontos mais frequentados pelos turistas.

A ida para Agra exigiu madrugar. Despertar às 5.30h. Só que nos atrasámos.
Faltavam 20 minutos para o Taj Express e ainda estávamos na Ashoka Road. 

Um táxi, dos muito antigos, revelou toda a sua eficácia. 
O comboio partiu instantes depois da nossa chegada. 


A nossa carruagem estava cheia de turistas. Só lugares sentados, carruagem espaçosa e bancos cómodos.


 

Vista do comboio
Vista do comboio

A viagem demorou algumas horas mas não foi cansativa.


Era confortável e deu para ver uma grande variedade de paisagens.

O Taj Express já tinha uma longa experiência, começou a funcionar em 1964, é utilizado essencialmente por turistas e a viagem demorou cerca de 2.30h.

Em Agra, o comboio ainda não tinha parado e e já dezenas de locais tentavam contactar os turistas pelas janelas. A caça ao turista.


Um chato, muito chato foi o que nos calhou. Primeiro assédio ainda na estação. No exterior o chatarrão voltou a insistir e não nos largou durante uns dois quilómetros que percorremos a pé e ele de bicicleta. Só depois de muitas recusas e de ofensas verbais (cada um na sua língua) é que nos deixou. Mais à frente, aceitámos o convite de um motoqueiro que nos transportou ao hotel Amar.
 Fechámos negocio. Ele ia ser o nosso guia durante o resto do dia.


O homem passou o tempo a mascar tabaco. Chama-se gutka e é tabaco misturado com estimulantes.
O que ele consumia era também misturado com noz de betel porque ficava com os dentes vermelhos e cuspia para o chão uma mistela também vermelha.

 

Criança a trabalhar num tear
Criança a trabalhar num tear

Percorremos vários locais de Agra. 
Zonas com monumentos e áreas comerciais.
Levou-nos a uma fábrica de tapetes onde uma criança passava o dia a cruzar fios num tear.
Os empresários 
preferiam a exploração de mão de obra infantil. 
As mãos são mais pequenas e mais ágeis para o trabalho no tear. 
Não gastámos um cêntimo na Harish Carpet Company.



A visita seguinte foi a uma fábrica de mármore e pedras de adorno. “Manufacturers & Exporters of Artistic Marble Art Wares”. 
Comprámos caixas de mármore trabalhado. 

A última paragem foi numa joalharia.



Porque o almoço no hotel tinha sido péssimo, fomos jantar fora.


O hotel ficava num local ermo e a única alternativa de transporte era bicicleta ou motorizada. 
Os sacanas sabiam disso. Levavam o preço de uma viagem por toda a cidade. E não regateavam..

Taj Mahal
Taj Mahal

 

O Taj Mahal é de facto deslumbrante.


Construído no séc. XVII a obra é em memoria de Mumtaz Mahal – a senhora do Taj – e mulher do imperador Shahjahan. 
Mumtaz Mahal faleceu em 1631, no parto do décimo quarto filho, e Shahjahan prometeu não voltar a casar. 
Decidiu entretanto construir o mausoléu junto ao rio Yamuna e contratou milhares de trabalhadores. Mais de 20 mil.
 A obra terminou em 1653, 21 anos após o início de construção.

Uma homenagem ao amor. 

É um monumento fantástico.
 Está classificado pela UNESCO como património da humanidade.

Como sucedia na Índia, o edifício estava cerca de uma multidão de pedintes.


 

 

Taj Mahal
Taj Mahal

O interior tem vários jardins. Estes espaços verdes são ao estilo inglês após o restauro no inicio do séc. XX, quando da colonização britânica.

O edifício é inspirado em várias culturas. Tem influência do islão, da Pérsia e da Índia e a arquitectura baseia-se nos túmulos da Mongólia. 

O mármore branco é quase todo trabalhado e há várias qualidades de mármore.

Para se aceder à parte central tinha  de se tirar o calçado. 

Nesta zona o mármore tinha incrustado pedras preciosas, citações do Corão e a cúpula estava decorada com fios de ouro.

Taj Mahal
Taj Mahal

A entrada foi por um jardim, alinhado com a escadaria. 

Em cima, de cada lado, duas mesquitas e em volta os quatro minaretes.

Para além do edifício em mármore, era igualmente espectacular a paisagem na parte de trás do monumento. 
Uma planície cortada pelo rio Yamuna.
Era este enquadramento que aumentava a espectacularidade do Taj Mahal. 

Ocupava todo o horizonte.



O imperador  Shahjahan terminou com vida a construção do palácio mas a doença e disputas com dois filhos obrigou-o a exilar-se no forte vermelho de Agra.

Forte de Agra
Forte de Agra

Uma outra visita foi ao forte de Agra.


Um complexo de edifícios em tijolo vermelho, numa encosta que “desagua” no rio.


O forte assimila a influência de várias culturas e dá um ar distinto à construção.

O imperador Akbar iniciou a construção em 1565 e terminou 16 anos depois.

A fortificação é muito grande e as muralhas têm 20 metros de altura.

No interior existem vários edificios, nomeadamente palácios. As construções são também em pedra vermelha e algumas outras em mármore branco. 
Do forte era visível o Taj Mahal, uma vasta planície, o rio e uma ponte.

Fatepur Sikri
Fatehpur Sikri

 

Nos arredores de Agra há várias atracões

A oito quilômetros está o Dayal Bagh, um templo hindu construído em mármore.

A pouco mais de seis quilómetro o túmulo Itmad-ud-Daulah's, construído no séc.XVII.
Um pouco mais longe, a 10 km, Ram Bagh, um jardim do séc.XVI.

À mesma distância pode-se visitar também Sikandra, um monumento que é uma fusão de arte hindu e islâmica.


A atração mais conhecida eraFatehpur Sikri..

Também era conhecida como a cidade fantasma mas o nome original tem outro significado: a cidade da vitória.

De visita obrigatória.


A partida foi bem cedo, num autocarro. Foi lavado à mangueira e os bancos ainda estavam molhados.



A viagem foi rápida.

Embora viajar nas estradas da Índia, na altura, revestia-se de algum perigo.
Durante a deslocação vimos um autocarro tombado, muitos mirones mas nada de autoridades ou apoio médico.

 

 

Bilhete autocarro
Bilhete autocarro

 


Sikri tinha também acesso através dos caminhos de ferro, com seis ligações diárias.

Hoje há também vários autocarros que fazem a ligação.

Sihkri fica a 37 km de Agra e é uma autêntica cidade fantasma.



Fatehpur Sikri está classificada como património da humanidade pela UNESCO.

Foi construída por Akbar o Grande, em 1571 e terminou em 1573 (descobertas recentes indicam que há vestígios de construções anteriores, do séc. XIV.)

Era a antiga capital do império Mughai e a tradução do seu nome é "cidade da vitória".


A lenda diz que foi aqui, em Sikri, que um santo sufi animou o imperador ao fazer a profecia de que, afinal, ia ter herdeiros.

Akbar pretendia edificar uma nova capital e por esse motivo escolheu Sikri.


A construção da cidade foi feita de forma planeada. 


 

Fatepur Sikri
Fatehpur Sikri

 

Tal como o forte de Agra, a construção dos monumentos e templos foi predominantemente em pedra (arenito) vermelha. 
A cidade estava protegida por uma muralha de seis quilómetros de extensão e apenas uma parte do sítio arqueológico foi estudado e tem edifícios praticamente intactos.
 O vídeo da UNESCO faz uma descrição do lugar.

São inúmeras as construções.  Mesquitas, edifícios públicos, palácios, um harém, áreas de lazer e de reunião com o imperador e outras figuras destacadas do império.

Segundo a lenda, Sihkri foi construída para ser uma faustosa capital do reino. 

Foi habitada durante 14 anos mas a falta de água levou ao abandono do local.


Na verdade, o motivo principal foi a decisão do imperador Akbar de se retirar de Fatehpur Sikri em 1585, para combater tribos afegãs e declarar Lahore como nova capital do império.

A cidade está na parte mais alta de uma montanha, com pátios enormes e foi concebida até ao último pormenor.


 

 

Fatepur Sikri
Fatehpur Sikri

 

Em 1988, os acesso à cidade eram através de uma encosta.


Cá em baixo, uma povoação cheia de gente e lixo era a outra face de Sikri.
  


Na viagem de regresso o autocarro estava cheio de passageiros, sacos e cheiros.

Os nossos vizinhos eram um casal de turistas indianos, de Mumbai.

O regresso a Nova Deli no Taj Express demorou cerca de três horas. 

A chegada foi próximo da meia noite.


Fizemos o caminho a pé até Connaught Place.

 Parte da caminhada foi pelo meio da estrada porque os passeios estavam ocupados por pessoas enroladas em mantas. 

Eram muitos os turistas do Taj Express que faziam o caminho a pé.
O movimento  das pessoas e carroças era completamente indiferente para os sem abrigo.


Em Connaught Place outros mendigos faziam fogueiras debaixo das arcadas do hotel Marina. 
No meio da praça estivemos a regatear o preço de uma motorizada. 
Feito o acordo o problema era com outro condutor que teimava em fazer o mesmo serviço.
Por pouco não houve uma rixa entre eles.


Regressámos ao YWCA Blue Triangle family Hostel.


No dia seguinte o almoço foi no hotel The Imperial. Instalações luxuosas, tipicamente britânico, com um amplo jardim, repleto de palmeiras, em redor de uma piscina.

O serviço era também rigoroso embora, naquela tarde, um empregado não reparou na porta de vidro e transformou-a em cacos.
 Três semanas após o início da viagem saboreámos um bife de vaca. Não faz parte da nossa dieta alimentar mas a oportunidade não podia ser desperdiçada.


O jantar foi numa outra YWCA., na International Guest House.
Uma surpresa.



Comida excelente e a sobremesa ainda era melhor. O serviço de mesa era feito por um homem de idade. Muito atencioso e simpático que nos oferecia sempre mais comida.
Fomos lá outra vez.


Deli - sight seeing
Deli - sight seeing


Em ambas as YWCA havia fotografias de turistas desaparecidos – todos eles jovens.


Outra particularidade era a segurança.

Durante a noite a vigilância era feita por um homem armado. Qualquer saída ou entrada era controlada.




O dia seguinte foi uma viagem num autocarro de turismo. 
Barato, 7,5 rupias
. Na nova e velha Deli. 
Deu para conhecer algumas avenidas, essencialmente em zonas mais distantes do centro da cidade.

Jardim Ghandi
Jardim Ghandi

 

O jardim Gandhi, The Mahatma Gandhi Park of Delhi,,  foi um dos locais que visitámos. 

Hoje é possível chegar através do metro.

Está localizado próximo da estação de caminhos de ferro em Old Deli.

O acesso era gratuito e o espaço não era muito grande. É onde está a tumulo de Ghandi. Nesta área, do mausoléu, só se podia andar descalço.


Fomos também visitar o forte de Deli que está classificado pela UNESCO.

Assemelha-se ao de Agra. 
Feito de pedra vermelha, no interior tinha espaços ajardinados. 

Foi construido no sec. XVII por Shahjahan, o mesmo imperador que decidiu edificar o Taj Mahal.
 Com a mesma opulência. Palácios enormes, com ornamentos de ouro, prata e pedras preciosas.




Um mar de gente estava à porta do forte. Vendiam souvenires ou ofereciam-se como guias. O guia avisou para se ter cuidado com as carteiras.


Neste espaço também estavam muitos policias. Com canas. 
Num dia, próximo da estação dos caminhos de ferro vimo-los em acção. Não eram meigos e davam fortes pancadas nas pessoas com as canas.

À entrada do forte também havia uma barra metálica, envolvida com longas superfícies pontiagudas.


Situação extrema foi a que vimos próximo do forte, no acesso a um templo.

Era uma rua não muito estreita. A parte central tinha pequenos tanques que deviam ser decorativos, com água. Quando da nossa visita estavam cheios de lixo e excremento.
Os passeios tinham muita gente, a maioria encostados às paredes. Esperavam por uma esmola. Eram, na maioria, mutilados.
Uns tinham uma atitude passiva. Outras encostavam-se aos turistas.
Um deles, sem pernas, apoiava-se na barriga, dava saltos enquanto berrava.


Um ambiente dantesco. 
Com muito cuidado conseguimos atingir o sopé da escadaria do templo.
Subimos algumas escadas e virados para o caminho víamos uma das piores cenas em toda a viagem pela Índia.
 Nas escadas também estavam vários mutilados. 


Um deles, sem pernas e com apoios de pele nas mãos começou a perseguir a E. Escada acima, escada abaixo.
 Foi de imediato a fuga. 
Nem deu para espreitar o templo.


Para nós terminou aqui o passeio turístico desta tarde..


Air India
Air India

No dia seguinte foi o voo para Mumbai onde fizemos escala a caminho de Colombo.


Contrariando uma ideia vulgarizada, o avião e o serviço da Air Índia não era mau. 
Música brasileira dava um ambiente diferente ao voo.


O aeroporto de Mumbai estava cheio de gente. Não foi fácil o transfer. Tivemos de correr.


Cansados e com calor entrámos no aparelho da Air Lanka que estava cheio de gente e com um ar denso.