Evocação da guerra civil em Mostar
Evocação da guerra civil em Mostar

Custa a esquecer. A cordialidade do povo e a amargura causada pela guerra civil.
No final do séc. XX a matança no centro da Europa, o continente da tolerância, envergonha-nos a todos.
Muitas casas têm ainda as cicatrizes da ira étnica e religiosa. O pesadelo é ainda sentido pelo povo, como também a sensação de que a Europa dos ricos não os envolver.
Mostar é linda, a ponte é unica em qualquer roteiro de viagens. Sarajevo é para não esquecer ao lado de Miss Sarajevo.

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O ponto de partida foi Dubrovnik, na Croácia, em Junho de 2013. Uma longa viagem que nos obrigou a madrugar.
Após dois autocarros urbanos até à zona portuária, seguimos viagem para Mostar (ou Stari Most).
Eram 8h. O autocarro tinha como destino Sarajevo.
A viagem tem paisagens deslumbrantes. Do lado esquerdo, o porto de Dubrovnik  e o mar. Esta vista termina no istmo que pertence à Bósnia. É muito pequeno e resulta dos acordos de paz para que a República da Bósnia tenha acesso marítimo. O problema é as paragens nas alfandegas. Até chegar à fronteira com a Bósnia tivemos de mostrar cinco vezes o passaporte.

Vestigios da guerra em Mostar
Vestigios da guerra em Mostar

A viagem até Mostar demora 3.20h. Mais de meia hora é nas alfandegárias. A paragem mais demorada é na fronteira principal que dá acesso à Bósnia. Dezenas de autocarros e camiões parados. Uma fila grande de carros. No meio de um descampado, ao lado da estrada.
A Europa dos ricos não chegou aqui. Nem a mínima organização das regiões fronteiriças.
A paisagem no interior da Bósnia revela um pais mais pobre que a Croácia. Revela também as feridas por sarar da guerra civil que começou em 1991.
Duas décadas depois ainda eram visíveis os destroços e os efeitos da guerra.
Terrenos que não podiam ser percorridos, casas destruídas e muitas outras esburacadas. Cemitérios recentes, grandes e pequenos, nas encostas de algumas colinas. Buracos nas paredes eram frequentes, essencialmente em casas situadas em locais estratégicos.
Por vezes, temos a tentação de imaginar os confrontos e as estratégias de guerra nestes locais.


Mostar - gare rodoviária
Mostar - gare rodoviária

No autocarro seguiam alguns turistas mas também locais. Gente de estatura pequena, com roupas que lembram os portugueses das zonas rurais. Gente idosa.
A paragem dos autocarros em Mostar fica num dos extremos da localidade. 

Atravessamos a cidade de autocarro e regressamos a pé para o centro. 

Uma caminhada de cerca de dez minutos até ao National Monument Muslibegovic House.

Muslibegovic House.
Muslibegovic House.

É um monumento nacional que funciona como museu e hotel.
Pertence a uma família otomana há mais de 300 anos. Uma família abastada que decidiu manter o edifício com a traça original e que decidiu, também, manter-se em Mostar. 
A área para as mulheres, o muro alto para não serem vistas, os quartos com mobiliário tradicional, as paredes decoradas com motivos locais...
Temos de deixar os sapatos na entrada, passamos para os tapetes e depois subimos as escadas e vamos parar ao quarto com uma janela pequena. A casa de banho é também pequena, com equipamento tradicional e de bom gosto.
O acesso aos quartos é feito através de um espaço comum. Uma sala que está aberta aos visitantes do museu e que pagam dois euros para visitar. 
No dia seguinte, na qualidade de visitantes, realizámos uma visita. Um situação singular, ser hóspede e visitante em simultâneo. Ou, talvez, seja a regra e não a excepção quando vamos para um simples hotel.
As pessoas que trabalham no monumento são muito simpáticas. Recebem-nos com uma bebida de boas-vindas e explicam como abrir a tranca do portão que dá acesso ao pátio do edifício.
A simpatia alarga-se à primeira incursão na cidade. Começou a trovejar e a chover e emprestam-nos um chapéu de chuva. Bom presságio porque, pouco depois, deixou de chover e fizemos todo o passeio sem uma pinga de água e passear o guarda-chuva mágico.



Ponte de Mostar
Ponte de Mostar

A cidade não é grande e todos os caminhos vão dar à ponte sobre o rio Neretva.  
Lugar simbólico. Da guerra entre croatas e muçulmanos. Da esperança da paz. Do amor entre pessoas de diferentes etnias e religiões que morreram no meio da ponte, vitimas da intolerância.
A ponte foi destruída em 1993, reconstruída em 2004 e é o ícone da cidade. É também património mundial da Unesco em conjunto com o centro histórico da cidade.
Muitos turistas descem as ruas empedradas, cercadas de lojas de souvenires e restaurantes em direcção ao Neretva.
Grupos de excursionistas que fazem de novos exércitos.

Dia e noite a ponte é agora flagelada por flashes de máquinas fotográficas. Das mais diversas perspectivas. Do inicio da encosta, na descida que dá acesso à ponte, num pequenos miradouro que fica um pouco mais longe, nos restaurantes que ficam na berma do rio… Em todo o lado a ponte é o foco. E é linda.

Ponte de Mostar à noite
Ponte de Mostar à noite

De dia o barulho da azáfama turística ofusca um pouco o ambiente. Ao entardecer é fantástico. 
Ouve-se o rio a correr, uma luz ténue provoca o brilho no branco das pedras da ponte e no verde forte das águas do Neretva.

Atravessar a ponte é também um exercício de imaginação. Como seria no tempo da guerra? Onde estariam os snipers? Que raiva levou esta gente a dizimar famílias e familiares! Estes pensamentos terminam com uma frase que está inscrita numa pedra no meio da ponte: dont´t forget 93.

Pescador de trutas
Pescador de trutas

Do outro lado da ponte há também ruas estreitas cercadas de restaurantes. 
Uma pequena cascata provoca algum barulho e ao mesmo tempo desperta a curiosidade para seguirmos por caminhos mais estreitos.
Lá em baixo um homem está na berma do rio a pescar uma truta. Daqui a pouco o resultado da pesca estará num prato de um turista.

Ao principio não se nota grande diferença entre as duas margens do rio. Mais tarde começam a ser evidentes que estamos num território diferente. Em primeiro lugar, lá no alto da montanha, uma cruz. Bem visível. Mesmo do lado muçulmano. Depois algumas igrejas e uma rádio local, a radio Stari Most (do lado bósnio, mesmo em frente ao nosso alojamento, está a RTM, radiotelevisão de Mostar).

Cascata
Cascata

As casas e as ruas aparentam um nível superior de riqueza (ou menos pobreza) do que do lado muçulmano. Um território mais organizado mas também mais frio, mais distante.

Do outro lado é mais confuso. Arruamentos por terminar, casas em ruínas e esburacas pelos projécteis das armas, crianças a correr no meio da estrada, mais comércio de rua, mesquitas e minaretes, cafés com homens a beber chá e café nas esplanadas... São ambientes diferentes que se recusam a diluir nas águas do Neretva.

Nos dois lados, em particular na zona histórica, o ponto comum é as casas de pedra e com telhados de xisto. Dão uma tonalidade cinzenta que contrasta com a vivacidade da ponte e do rio.


O custo de vida, para um ocidental, não é elevado. Há oferta para vários bolsos. Em alguns restaurantes paga-se o conforto e a singularidade da paisagem. Mas também se venda comida em lojas de rua e dois croissants com salsicha e doce custam cerca de dois euros.

Vista de Mostar a partir da ponte
Vista de Mostar a partir da ponte

A oferta de alojamento é pequena mas variada. Muitos visitantes acabam por não dormir. Fazem uma breve paragem. Chegam em excursões provenientes da Croácia e partem ao final do dia.
No entanto, Mostar merece mais do que um “stop over”. 
A noite é muito diferente. É um lugar calmo e belo essencialmente na zona histórica.
Pode-se passear durante a noite, não há recomendações de perigo mais agravadas do que em qualquer outra cidade. Apesar das memórias dos locais.

 

Sarajevo:

Autocarro para Sarajevo
Autocarro para Sarajevo

A viagem de autocarro até Sarajevo demorou 2.30h com muitas paragens.

No caminho temos a companhia de muitas montanhas e da ligação ferroviária. Não é grande alternativa ao autocarro porque é muito lento, embora, vários relatos adiantem que é uma viagem interessante do ponto de vista paisagistico.

Nas principais localidades mantém-se a memória da guerra com marcas em edifícios.



Os arredores e a entrada de Sarajevo não é promissora.

Eléctrico em Sarajevo
Eléctrico em Sarajevo

Eléctricos velhos, um ambiente cinzento e triste e poluição em algumas ruas. A estação de autocarro é desoladora. Parou no tempo. A viagem de táxi para o hotel também não promete muito. Ruas estreitas, escuras, a serpentear uma colina e com casario velho.


O hotel Michele  é uma ilha neste local. Foi inaugurado em 2006, é uma exploração familiar e aposta na decoração clássica. Tem um salão grande, com pinturas, mobiliário clássico e tradicional. Na sala de refeições cada mesa tem um conjunto de louça diferente. Não procura o requinte. Apenas o conforto com um gosto particular. 

O Michele  já recebeu Bono Vox, Richard Gere, Kevin Spacey, Morgan Freeman, Steve Buscemi, Terence Howard, Michael Moore, etc. Assim está escrito no site, onde também se refere que há hospitalidade mas não spa ou piscina. Foram estes os argumentos que nos convenceram. Ainda bem. Gostei muito.

Mais do que as instalações o mais agradável foram as conversas com a familia que faz a gestão do hotel.

Mulher numa rua de Sarajevo
Mulher numa rua de Sarajevo


Logo na primeira noite estivemos (eu e a dona do hotel) a fumar no átrio.
Ela falou da guerra com ira e da política com desapontamento. Perdeu familiares na guerra civil e conclui que foi tudo uma estupidez. Não encontra sentido. Acha que o nacionalismo e o aproveitamento político estiveram na génese do conflito e não houve qualquer motivação religiosa.
 Com voz serena mas embargada de emoções, conta as famílias destroçadas, o absurdo do dia a dia, as pessoas conhecidas que viu morrer. Não lhe digam que foi por motivos religiosos. Recusa-se a acreditar. Na sua famiília professam várias religiões e nunca este foi um tema de discórdia. Nunca. 
Teve esperança com a paz. Mas foi por pouco tempo.
 Os europeus recusam-nos. Os dirigentes locais nada aprenderam com a guerra. Mantêm os vicios, as divisões e, tudo isto, é o garante da sobrevivência de um número enorme de dirigentes políticos e responsáveis da administração central.
O filho pega num maço de tabaco e explica: Fumar mata. Todos o sabemos e na Bósnia todos entendem qualquer uma das línguas das várias comunidades. No entanto, num maço de tabaco, o alerta tem de estar escrito nas três línguas. Agora amplie isto para formulários, sinais de trânsito, burocracia, representantes políticos...e corrupção.

Um outro contacto interessante no hotel foi com um jovem empregado. Um rapaz bósnio, estudante de jornalismo e interagiu num fórum com estudantes portugueses. Não tem grande auto-estima pela sua comunidade. Sente-se deslocado e o seu sonho está noutros países europeus. Esta foi uma vontade expressa por muitos bósnios. Serem europeus de pleno direito.



Vista de Sarajevo
Vista de Sarajevo

É fácil ir do hotel ao centro da cidade. O difícil é regressar. Passar o tempo a andar a pé e terminar o dia a subir a rampa para chegar ao hotel é pouco animador. Paciência, não se pode ter tudo e os táxis são baratos.
 De qualquer forma, com calma, chegamos bem.
Por outro lado, não é perigoso andar a passear de noite nas zonas turisticas de Sarajevo. Há sempre gente na rua, em particular no bazar e nas ruas comerciais.
Dá para ir jantar, dar uma volta, ficar sentado numa esplanada a tomar um café e regressar a pé ao alojamento.


As primeiras horas em Sarajevo serviram para descobrir a zona histórica da cidade. Também para mudar de opinião. Está a desfazer-se a primeira impressão. Afinal Sarajevo tem piada. Interessante na arquitectura, na variedade cultural, na rápida passagem para locais marcadamente pertencentes a uma comunidade.


Inat Kuca
Inat Kuca

O dia terminou com o jantar no Inat Kuca. Foi recomendado pela dona do Michele e serve comida bósnia.
Duas refeições custaram cerca de 17 euros. 

O local é muito acolhedor, a arquitectura é tradicional e tem uma história interessante. Verdadeira ou falsa, não importa. É a seguinte: quando da construção da sede do município queriam demolir a casa tradicional que estava na proximidade. O dono recusou sempre. Nada o demoveu e foi tão peremptório que tiveram de mudar a casa, pedra a pedra, para a outra margem do rio próximo da ponte Ćehajas.

Vista do rio e da sede do municipio
Vista do rio e da sede do municipio

Deste lado da cidade temos uma vista deslumbrante que segue o curso do rio Miljacka e as várias pontes. Em particular, ao anoitecer, é deslumbrante.
 Atravessa a zona plana de Sarajevo e cada pedaço de terra tem uma história. A zona histórica, a Baščaršija,  que teve origem no séc. XV, que pretende memorizar a fundação otomana  e consiste numa reconstituição do bazar,  o refúgio de judeus que fugiram da Península Ibérica, a ponte Latina onde foi morto Francisco Fernando, o arquiduque da Áustria, e que esteve na origem da I Guerra Mundial, a guerra entre bósnios, sérvios e croatas que durante três anos provocou imensas vítimas e destruição e, por último, os sinais de alguma recuperação económica com a paz e os apoios internacionais.

É esta zona da cidade que tem os principais pontos turísticos.
Um dos primeiros destinos foi a velha igreja ortodoxa, um dos edifícios religiosos mais antigos da cidade. Foi construída no séc XVI e várias vezes destruída por incêndios.
Hoje alberga um museu. Está decorada com vários quadros e tem cadeiras onde podemos sentar e meditar.
 Mesmo ao lado, há um bar com venda de garrafas de vinho e uma esplanada. Logo a seguir, um pavilhão com muitos quadros, ornamentos e artefactos ortodoxos. Algumas das pinturas são deslumbrantes e do séc. XIV.

 Mesquita Gazi Husrev-Beg
Mesquita Gazi Husrev-Beg

Um quarteirão ao lado, na zona histórica otomana, a Baščaršija,  está a imponente Mesquita Gazi Husrev-Beg e ao lado a madrassa.
Fazem parte de um conjunto arquitectónico amplo e muito frequentado.
A mesquita foi construída no séc. XVI e é o maior local de culto muçulmano na Bósnia. Está também na história por ter sido a primeira mesquita a ter iluminação eléctrica, em 1898.
Quase um século depois fica também na história pela sua reconstrução, após ter ficado muito danificada com a guerra civil e os ataque sérvios.
Como lugar de culto, a mesquita é muito frequentada.

 Mesquita Gazi Husrev-Beg
Mesquita Gazi Husrev-Beg

Por outro lado, é também um ponto de encontro e de convívio da comunidade muçulmana.
No átrio, onde está uma bela fonte, muitas pessoas aproveitam para conversar. O que, na verdade, inquieta os turistas porque querem fotografar a fonte sem pessoas a ofuscar a estrutura.
 Quando está sol, alguns fiéis sentam-se num dos corredores do exterior, ao lado de tapetes e contemplam quem passa.

A mesquita não passa despercebida devido à sua dimensão e à altura do minarete. Mesmo assim, para os mais distraídos, não deixariam de notar por causa do chamamento para as orações.
A madrassa é a mais antiga escola da Bósnia. Foi fundada em em 1537 e tem funcionado de modo interrupto.
Na madrassa pode-se ter acesso à zona central. Em frente, no jardim, estão duas dezenas de lápides de mortos na guerra civil. Ao lado, em contraste com a arquitectura desta zona, está um edifício novo onde funciona uma biblioteca.

Sinagoga
Sinagoga

Curiosamente, não muito longe deste complexo muçulmano está a primeira sinagoga de Sarajevo e uma das mais importantes  nos Balcãs devido à sua relevância histórica.
Muzej Jevreja é hoje um museu e é impressionante a sua história. Criar/destruir; integrar/fugir...
Desde a fundação, à recepção de judeus expulsos da peninsula íbérica, a integração em Sarajevo, a destruição provocada pelos austriacos e o holocausto na II Guerra Mundial.

O edificio de pedra é austero, tem as marcas de um lugar de culto e é muito bonito.
Nos três andares tem vários artigos em exposição, Cada andar é dedicado a um tema. Guardei na memória que nos anos 30 do séc. XX tinham uma equipa feminina de andebol. Bem evoluídos, nada ortodoxos. 


 Baščaršija
Baščaršija

Sarajevo é para visitar a pé. Em alguns locais, como no antigo bazar, parece um labirinto mas facilmente se encontra um rumo. O rio serve de guia e a fortaleza de estrela polar.
Lá no alto, na colina que cerca a cidade, está a fortaleza. Sempre vigilante. Foi construída no séc. XVI com essa finalidade. Mais tarde, com o império austro-hungaro foi ampliada. Com pedra branca e está na origem do nome Fortaleza Branca (outros chama amarela). A Bijela Tabija tinha uma posição estratégica porque era uma das portas de entrada em Sarajevo.
Com os seus canhões e em conjunto com uma muralha protegia a cidade. Hoje não tem essa função. É apenas um miradouro. Fantástico para uma vista geral da cidade.

Sarajevo vista da fortaleza
Sarajevo vista da fortaleza

Fomos a pé, o que não é recomendável. É um caminho longo e extenuante. É mais fácil apanhar um autocarro que parte no centro da cidade.

Tivemos de contornar o túnel, passar ao lado do hotel e depois arrastar-nos por uma rampa muito íngreme. Não convém sair da estrada por causa das minas. Há avisos em alguns pontos.
A fortaleza está a quase 700 metros de altitude. São muitos metros para uma subida.
Lá no alto sentimos a compensação do esforço. A paragem é duplamente obrigatória. Pelo cansaço e pela vista.
Tem uma perspectiva singular: o vale atravessado pelo rio, as várias pontes e monumentos, lá ao longe a parte nova com edificios muito altos. Mais próximo da fortaleza o olhar aponta para zonas residenciais em espaços verdes, com ruas íngremes.
Um lugar para espraiar os olhos. Calmo, uma ligeira brisa, o céu ligeiramente enovoado. Uma jovem sentada na berma saboreava a paisagem e um cigarro. Isso mesmo, estar, sentir...
A fortaleza não está aberta ao público. As pedras brancas dão um ar de grande sustentabilidade mas, na verdade, fica-se com a ideia que a estrutura está em ruína. Há um projecto para transformar a fortaleza num ponto turístico de Sarajevo com espaços culturais e de entretenimento.

Cemitério
Cemitério

A descida foi a pé, pelo outro lado da colina. Da fortaleza já tínhamos visto e o olhar não esquece um longo cemitério. Um espaço onde o verde é mil vezes quebrado pelo branco das cruzes. Todas alinhadas, todas recentes. Algumas pessoas percorrem a pé o imenso cemitério.

Ao lado, uma rua calçada que nos levou até ao vale. Só lá em baixo o cemitério é ofuscado pelo casario.
O regresso à zona histórica.

O cansaço foi grande e exigia um bom descanso. Num restaurante, o primeiro que encontrámos. Não tivemos sucesso. A ementa não estava traduzida e o homem que atendia os clientes também não mostrou esforço ou simpatia para alargar a sua clientela. Uma rua depois, um outro restaurante da mesma cadeia e com muitos locais a almoçar. Repetiu-se a antipatia mas agora com uma mulher.

Cevapi
Cevapi

Pedimos um prato igual ao que alguns locais estavam a saborear. Pão, salsichas, cebola e maionese. Algo parecido com um cevapi.
A empregada estava com pressa e nem deu para pedirmos um café pois, colocou a factura de 11 marcas em cima da mesa. Caramba, aqui local turístico é assim: fast com traditional food.
Não se pode generalizar. Por exemplo, um dos lanches foi bem diferente. Foi no Remis. Numa das ruas com casas do bazar . A experiência teve três destaques: uma jovem empregada muito simpática, as pêras com chantily e uma bebida com sementes e anis, de cor amarela e sabor estranho.
Uma outra experiência gastronómica, com um fotógrafo norte-americano que conhecemos em Sarajevo, foi num pequeno restaurante na Baščaršija. . Fica entre a praça central e a sede do município. A comida era saborosa, feita à nossa frente. Carne enrolada em vegetais, chá  e pão.

 Mesquita do Imperador
Mesquita do Imperador

Os passeios a pé por Sarajevo mostram uma grande variedade de sítios com história e locais de interesse cultural e religioso.

Num instante passamos pela ponte Latina, o teatro, a universidade e a mesquita do imperador.  Fica ao lado do rio e o imponente minarete tem as montanhas como cenário de fundo.
 Foi a primeira mesquita construída na cidade, em meados do séc. XV, na sequência da conquista do império otomano.
É um amplo lugar de culto e considerada uma das mais belas mesquitas otomanas nos Balcãs.
O religioso que faz o chamamento teve uma longa conversa. É de Istambul e usa o iphone para fazer ouvir a sonoridade do seu chamamento. Simpático e fiel à sua missão. Disse que já converteu ao chamamento de Deus uma argentina e uma eslovena.



Ferhadija
Ferhadija

Da religião para uma actividade pagã: comércio. A rua Ferhadija é um dos pontos altos. Atravessa parte da cidade a partir da zona histórica.
É uma rua pedestre paralela ao rio. É aqui que se encontram alguns monumentos, teatros, muitos restaurantes, gelatarias, esplanadas e espaços comerciais, alguns deles de marcas que estão em todas as cidades ocidentais. 

O comércio é mais interessante na zona do bazar. As lojas de artesanato, roupa, brinquedos, gelados... Há ainda um pequeno mercado fechado. Próximo da Ferhadija, numa rua escondida, há também um mercado popular. Com muitos produtos de contrafacção. Foi aqui que comprei um impermeável porque o tempo em Sarajevo é instável. Foi barato e muito útil.

De regresso à Ferhadija tive de comprar uma caneta para os apontamentos de viagem. Reparei então que foi a única papelaria que encontrámos em toda esta zona da cidade. O mesmo se passou com lojas de venda de música.


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A Ferhadija é uma rua que também serve de referência a quem visita a cidade a pé porque é um ponto de passagem frequente.
Numa das travessias estava um homem aos berros, sentado ao lado da chama que integra o monumento da II Guerra. Estava muito agitado. Na passagem seguinte a polícia já o estava a colocar dentro de um carro.

Outra vez, assistimos a uma manifestação de apoio e solidariedade com o povo turco na praça BBI, junto ao centro comercial que fica na Marsala Tita, a rua que dá continuidade à Ferhadija.

reportagem da  Hayat TV
reportagem da Hayat TV

Um dos manifestantes estava a ser entrevistado pela Hayat TV mas não foi fácil. Um homem que estava na esplanada não concordava com o protesto e até discutiu com o entrevistado.

Próximo do monumento da II Grande Guerra, numa outra altura, foi a vez de assistirmos a uma concentração de antigos militares.
Combatentes que alinharam pelos exércitos da Áustria, Itália e Bósnia. Assinalavam uma batalha. Houve ordens militares, discursos e muitas fotografias. A data é evocada cada ano num país diferente.

Por último, (como a avida cívica é agitada em Sarajevo!) ainda assitimos a uma manifestação na zona histórica contra a construção de uma barragem no interior da Bósnia. 


 mesquita Ali Pasha
mesquita Ali Pasha

Não muito longe do BBI Center está a mesquita Ali Pasha. O caminho faz-se bem,com muita gente nas paragens de autocarros. 
O cenário muda um pouco. Edificios desinteressantes, praças com muita azáfama e trânsito. A mesquita fica, no entanto, num refúgio verde.
Neste extremo da cidade a mesquita é um dos poucos pontos  de interesse. O melhor é o regresso junto ao rio até à ponte Eiffel com uma paragem num banco do jardim, mesmo ao lado da embaixada do Irão.
Contemplar o a cidade a partir da perspectiva do rio. Pessoas a passear, dois homens a pesacar sentados na berma do rio, a rotina...


Academia das Belas Artes
Academia das Belas Artes

Lá mais à frente uma ponte moderna, com uma zona de descanso mesmo no meio da estrutura, desperta a curiosidade. Temos de nos sentar naquele banco. Em frente fica a Academia de Belas Artes. O edificio é de arquitectura árabe, muito belo e está recuado, com um jardim em frente que é vizinho com o rio. De noite, do outro lado, é deslumbrante, com as luzes a salientarem as linhas do edificio.
Na altura da nossa visita tinha em exposição material electrónico.


O regresso ao centro da cidade pode ser feito até um parque, junto à igreja ortodoxa.

Muitos locais, essencialmente idosos, juntam-se aqui.

Populares a jogar xadrez
Populares a jogar xadrez

No chão está pintado um tabuleiro de xadrez e. com peças de plástico enormes, vários locais vão passando o tempo. Olham com muita atenção para os movimentos dos jogadores. Discutem, comentam em privado, fazem sugestões, acenam com a cabeça em sinal de discordância... Com um tom brincalhão, mas outros, com ar inflamado. Levam a sério o jogo.


Por vezes há também algumas tendas de madeira com venda de produtos artesanais, chá, mel...

A igreja ortodoxa, de seu nome Cathedral Church of the Nativity of the Theotokos, é um dos maiores templos da comunidade sérvia na Bósnia e foi contruída entre 1863 e 1868. A torre principal é muito alta e muito bonita. O interior é igualmente muito bonito com um altar imponente.


Interior de igreja ortodoxa
Interior de igreja ortodoxa

Visitamos ainda outra igreja ortoxa mas muito mais pequena.
Fica próximo da rua Konak, no lado esquerdo do Mijacka.. É mesmo muito pequena e o altar domina o olhar. Uma religiosa fazia a limpeza. De resto, um absoluto silêncio quebrado apenas pelo barulho da minha

Muito próximo fica também a igreja de santo António de Pádua. Não é fácil de descobrir e tivemos essa experiência. Tem uma arquitectura muito própria e a sua origem deve-se a famílias católicas que residiam em sarajevo no séc. XVII.


Sarajevska Pivara.
Sarajevska Pivara.

Do ouro lado da Konak fica a fábrica de cerveja de Sarajevo, a Sarajevska Pivara.
É um edifio grande, de cor de tijolo, com uma entrada muito larga, para transporte de mercadoria. Do outro lado tem acesso ao museu e à cervejaria. É espaçosa, com dois andares, decoração clássica e ouve-se música ocidental.
A cerveja é agradável, com sabor intenso.


O regresso a Dubrovnik foi novamente de autocarro. A viagem demorou cerca de seis horas. 

Na partida, quando o autocarro começou o andamento, despedi-me da cidade a ouvir Miss Sarajevo, dos U2. Inesquecível.