Istambul - corno de ouro e mesquita nova
Istambul - corno de ouro e mesquita nova

Pamuk é o responsável. Foi ele que despertou a minha curiosidade para visitar Istambul.
Mais,  a minha leitura da realidade foi fortemente influenciada pela ficção de Pamuk que, presumo, é por sua vez, uma leitura critica da realidade turca.
Deste modo, a vivência é de alguém perdido na transição entre a realidade e a ficção. Ocidente/Oriente; liberdade/opressão e grandiosidade/decadência são alguns dos binómios que me orientaram na leitura desta realidade. No entanto, o resultado, a marca final é fascínio.

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Vista de Galata a partir do corno de ouro
Vista de Galata a partir do corno de ouro

Não me parece que Istambul seja uma cidade tipo paixão eterna. Mas é, certamente, uma cidade para vivenciar durante alguns anos. Não apenas uns dias.
A visita foi na passagem de ano de 2007/2008. Frio à noite e sol durante o dia. Muito bom, para começar.
Ficámos alojados num hotel em Marmara. O Marmara Pera fica mesmo em frente a uma estação de transporte público e ao lado do hotel onde ficou Aghata Chistrie quando escreveu Um Crime no Expresso Oriente. No primeiro dia não deu para ver a vista. Chegámos de noite e após um jantar no hotel fizemos apenas um pequeno passeio.
O maior problema é que não tínhamos qualquer referencia geográfica do local onde estava o hotel.
Já no quarto, com uma visão mais atenta do mapa, descobrimos que era a poucos metros da rua Istiklal que vai até à praça Taksim.

Istambul vista do hotel Marmara
Istambul vista do hotel Marmara

O despertar no quinto andar foi uma descoberta interessante.

A vista de Istambul da janela do nosso quarto.  
Um imenso casario de inúmeras cores e formas. Em cada prédio a marca de uma antena parabólica e edifícios velhos e novos a subirem uma colina enorme. Lá no alto, vários minaretes tocam o céu. O hotel tem uma vista magnifica do último andar.

Mármara é uma zona moderna. Classe média, comércio mais desenvolvido e ruas com muitos hotéis e restaurantes.

praça Taksim
praça Taksim

A zona com maior concentração de turistas não é deslumbrante. Parece igual a muitas outras cidades europeias. Ruas com bares, restaurantes e lojas de artesanato. Além de uma forte presença policial.
O nosso hotel ficava distante, noutra zona da parte nova de Istambul. A meio caminho entre a torre Gálata (é um marco nesta zona e de fácil identificação, por outro lado, do alto da torre, consegue-se uma vista fantástica da zona antiga de istambul) e a praça Taksim. Num local muito mais interessante.

Istiklal
Istiklal

A rua pedestre, a Istiklal, era a nossa favorita.
De dia tinha muita gente, era relativamente calma, mas à noite era um dos locais preferidos pelos turistas e locais.
Os edifícios têm uma arquitectura clássica, estão bem conservados e partilham a rua com igrejas e embaixadas, cada uma delas com presença policial.
Há também várias livrarias, cafés, lojas de doces e artesanato, lojas de vestuário e imensos restaurantes. Pelo meio passa um eléctrico. Atravessa a rua de um extremo ao outro.

Loja proximo de Taksim
Loja proximo de Taksim

Há restaurantes para todos os gostos e carteiras.
Alguns deles têm uma pequena montra onde uma mulher trabalha a farinha e faz o pão.
O nosso restaurante preferido, Konak, era muito frequentado por locais.
Não era muito fácil arranjar lugar e por vezes tivemos de repartir a mesa com outras pessoas. Num dia foi com um palestiniano simpático.
O maior problema era a comida.
Entradas, saladas, pão, fritos, molhos.... uma diversidade gastronómica que não se podia perder.
Comida muito saborosa, convidativa a experimentar outros pratos e, apesar de se antecipar uma digestão farta, não se podia perder a sobremesa.
O preço não é caro. Não difere muito de um restaurante médio de Lisboa.

Foi também nesta rua a passagem de ano.
Na verdade, julgo que, talvez, foi a primeira vez que fiz a passagem de ano na rua.
Apanhei o gosto e dois anos depois foi em Nova Iorque.
Procurámos locais para a entrada em 2008. As alternativas não eram aliciantes e por sugestão de um empregado do hotel fomos experimentar a rua pedestre.
Era atravessar duas ruas pequenas, muito estreitas e de seguida era a rua Istiklal.

Populares na passagem de ano
Populares na passagem de ano

Estava cheia de gente. Uma multidão que aumentava com o aproximar da meia noite.
Muitos homens, uns sozinhos outros em grupo. Famílias com crianças que levavam brinquedos luminosos. Restaurantes cheios. Vendedores ambulantes. Grupos de turistas.  Um destes grupos eram quatro mulheres. Louras. Os locais não as deixavam. Metiam conversa, afagavam o cabelo, fingiam que eram namorados e outros até as tentavam beijar. De inicio elas levaram para a brincadeira. Depois perceberam que a coisa se podia complicar e começaram a barafustar. Eles insistiam. A sorte foi a policia estar por perto.
Um destes homens reconheci-o no dia seguinte. Numa peça no telejornal. O assedio às turistas (a estas e a outras) foi mais complicado. A policia deteve mais de uma dezena de turcos. Assédio, intimidação, assaltos... um grupo de ocidentais teve de se refugiar num restaurante. Só a policia conseguiu abrir caminho para saírem dali.
A maior parte destes problemas ocorreram junto à praça Taksim.
Semanas antes morreram vários soldados turcos em conflitos com a minoria curda. Ao contrário do habitual, tendo em conta esta situação, o governo local decidiu não fazer a festa da passagem de ano na praça Taksim, considerada o coração político da cidade e um grande símbolo da república turca.
O que não impediu os populares de cumprirem a tradição.
Era onde se concentrava mais gente e por precaução evitámos ir para aí.

Fogo de artificio em Taksim
Fogo de artificio em Taksim

Nas badalas da meia noite um imenso fogo de artificio foi lançado do lado da praça.
Toda a rua brilhava com mistura das cores dos foguetes e da iluminação de natal. O reflexo nas janelas dava ainda mais vivacidade. Algum do fogo de artificio era dirigido para o meio da rua onde muita gente se dirigia ainda para a praça.
Locais e turistas festejavam a passagem de ano. Os mais exuberantes eram jovens turistas. A passagem do ano, com todas estas peripécias, foi um dos momentos inesquecíveis.

Basílica de Santa Sofia
Basílica de Santa Sofia

Na passagem breve por Istambul fizemos o roteiro habitual, com a visita à fantástica Mesquita Azul e à não menos admirável Basílica de Santa Sofia que nos remete para Constantinopla, para as civilizações romana e bizantina. Ficam muito próximas.
As duas mesquitas exigem algum tempo para serem visitadas.
Os amplos interiores, os átrios e os detalhes requerem atenção.

Mesquita Azul
Mesquita Azul

O trabalho minuncioso das cúpulas, dos vitrais, do trabalho a ouro...são pequenas relíquias decorativas e religiosas que fazem parte de um conjunto deslumbrante.
Por outro lado, não deixa de ser menos interessante assistir aos rituais dos crentes. De locais e de estrangeiros que confessam a mesma religião. A passagem requer também a visita ao hipódromo e à evidente fusão de culturas arquitectónicas.
Convém visitar estes espaços em hora que não coincida com o elevado acesso de turistas. Prejudica a paz da contemplação.

Palácio Topkapı
Palácio Topkapı

Visitámos ainda o Palácio Topkapı, para o qual é preciso tempo e paciência.
Tempo porque é muito grande e com várias exposições. Paciência porque em alguns locais a frequência é tão grande que há filas de espera. Por outro lado, não se pode perder a experiência que, certamente foi partilhada com o sultão e a elite otomana. Estar sentado nos jardins do palácio a contemplar o Bósforo.
Uma outra particularidade é a noção que fica reforçada com a visita à sala das reliquias: as guerras servem também para o saque de obras de arte e peças valiosas. Foram o que fizeram as sucessivas civilizações e impérios.

 

Grande Bazar
Grande Bazar

Uma outra visita obrigatória é ao enorme e surpreendente Grande Bazar concentrando no mercado a enorme diversidade de objectos, cores, cheiros e criatividade da Turquia.
As ruas interiores que ligam as várias secções estão cheias de gente, locais e turistas e a decoração árabe é muito pormenorizada e colorida.
Como é costume tem de se regatear mas os comerciantes são hábeis no negócio. Também muito cordiais com os estrangeiros e não insistentemente persuasivos. O mesmo é dizer, não são chatos.
Um roteiro interessante e obrigatório.

 

Rua Gálata
Rua Gálata

No entanto, o que mais gostei, além da experiência da passagem de ano em Istiklal, foi passear pelas ruas.
Descer a encosta de Gálata em direcção ao Corno de Ouro, andar por ruas estreitas com uma enorme diversidade pessoas e surpresas ao virar da esquina.

Passar pelo interior de pequenos mercados, assistir ao ritual religioso nas mesquitas.
Encontrar espaços partilhados por artesãos e lojas modernas de electrónica. Descobrir associações de bairro de índole cultural e apoio social e religioso.

Sumo de romã
Sumo de romã

Vendedores de sumo de romã que com uma máquina e uma banca improvisada saceiam a sede dos locais e a curiosidade dos turistas (é muito refrescante e também uma óptima oportunidade para trocar impresões com locais), alfaiates, cafés, lojas de fruta... gente a caminho do trabalho. Aromas que se cruzam na nossa memória e olhares curiosos que de repente, muitas mulheres, viram para o empedrado. As conversas de rua....
O pulsar de uma cidade de muitas culturas e religiões.

Pescadores na ponte Gálata
Pescadores na ponte Gálata

De repente, a ponte de Gálata, espraia-se a céu aberto com uma imagem que não esqueço.
Centenas de canas de pesca que fazem uma filigrana nos dois corredores da ponte. São pescadores, quase sem espaço entre eles, colados aos parapeitos da ponte.
Quando passa um barco içam a cana, depois voltam a descer, como se fosse um bailado.
Na parte inferior da ponte há vários restaurantes e a vista também é dominada pelos pescadores.

Mesquita Nova ou Yeni Cami
Mesquita Nova ou Yeni Cami

Percorrer este lado da cidade, ao longo do Corno de Ouro é também uma experiência deslumbrante.
De um lado o trânsito e os transportes públicos que vão para a ponte.
Do outro lado, vendedores ambulantes, comerciantes e gente que vai subir a colina para o mercado antigo.
Há várias mesquitas na rua onde termina a ponte. Uma delas, a Mesquita Nova, ocupa uma vasta área e o local onde está situada capata de imediato o olhar.
Muitos turistas passeiam por aqui e os fotógrafos têm uma vista fantástica da zona nova de Istambul.

 

Bósforo
Bósforo

Uma outra experiência que ficou na memória foi o passeio pelo Bósforo.
Como em muitas outras cidades, a visão distanciada a partir do rio (no caso o estreito)  é muito interessante. A arquitectura, a conjugação de prédios, ruas, a luz... dá uma perspectiva única.

É fantástico percebermos a diversidade e a beleza da cidade a partir do estreito.
Olhar para norte, ver uma das pontes e em baixo uma enorme mesquita.
Olhar para a enovoada colina asiática e sentir a diversidade de cores que rompem com o cinzento do nevoeiro e o verde das árvores...

palacio Saraylar
palacio Saraylar

Pelo meio, a vida do estreito com dezenas de barcos de grande dimensão a fazer a travessia.

É ainda surpreendente perceber as várias "cidades" dentro da enorme metrópole que é Istambul com mais de 13 milhões de habitantes.
Prédios de gente rica com cais privado, edificios antigos (caso do palácio Saraylar), bairros de classe média e alta, casas de campo que se elevam com a colina do lado asiático, parques... uma diversidade de sinais que evidenciam como é gritantemente contraditória a realidade social.

Muralha de Constantinopola
Muralha de Constantinopola

Este sinal é ainda mais evidente no outro lado da cidade, junto às muralhas de Constantinópola onde centenas de sem abrigo fazem fogueiras para se aquecerem. Vivem do nada.
Autocarros com turistas passam ao lado, ouvem recomendações para não andarem a pé por aqui, muito menos de noite.
Muitos locais fazem a travessia de carro. Há apenas um grande mercado de peixe e em alguns locais pontos de observação do Bósforo. É desolador.
É também enorme a diferença entre alguns bairros. Vivendas junto ao estreito partilham o horizonte com bairros pobres, no outro lado do horizonte. Ruas estreitas, casas velhas. muita gente na rua ou a atravessar vias rápidas.

Vista de Istambul a partir da  colina de camlica
Vista de Istambul a partir da colina de camlica

Do lado da Àsia, Istambul também regista marcas diferentes. Mais mulheres com véu.
Fomos à colina de camlica que tem uma magnifica vista da parte europeia de Istambul.  É a colina dos namorados ( os noivos vinham aqui tomar chá com os convidados) e tem várias instalções para tomar café e cha´. Há mais. É o caso do Sahlep. Estava frio e experimentei. Fantástico, ainda recordo o sabor e o aroma.

Vendedor de castanhas
Vendedor de castanhas

Experimentei mais tarde num restaurante turco em Lisboa e não é a mesma coisa.

 
Duas notas finais. O transito é caótico. Vale mais andar de transportes públicos. Metro, barco, electrico, funicular (a viagem é interessante e leva.nos até perto da rua Istiklal) ... a pé.
aeroporto fica a mais de 20km do centro da cidade. Em hora de ponta é um desespero viajar de carro. Uma das melhores alternativas é viajar de metro.
Segunda nota: além do sumo de romã, não deixe de comprar castanhas assadas (em tempo frio, claro). São muito boas.