Visitei a Coreia do Sul em 1993. Numa visita de trabalho, quando Portugal era um pais rico...
Entre 14 e 18 de Outubro.
O voo KE 916 partiu de Zurique na Korean Air.
Um Jumbo de dois pisos e a viagem pelo norte da Europa deu para dormir.

A chegada a Seul foi no dia seguinte.
Uma cidade com imenso calor e trânsito. Perde-se imenso tempo em filas.
Prédios enormes servem de referencia no meio de um ambiente difícil de decifrar.
A paragem seguinte foi no Palácio Presidencial, Cheongwadae
Um espaço calmo. Fora do frenesim da cidade.
Um jardim enorme e o palácio com o tecto azul dá-lhe um outro nome pelo qual também é muito conhecido: “The Blue House".

Paralelo 38,
Paralelo 38,

Ainda neste dia, 15 de Outubro, foi o momento mais espectacular na Coreia do Sul.
A passagem pelo Paralelo 38, que divide a península coreana aproximadamente ao meio. 

É uma zona desmilitarizada  com 4 km de largura e 238 km de comprimento.
Como praticamente não está povoada e é desmilitarizada, diz-se que acaba por ser uma reserva natural para várias espécies.

A viagem foi de autocarro.
Depois do rebuliço de Seul surgem zonas verdes, um espaço mais calmo e rural. Pequenas povoações.

O paralelo 38, mais propriamente Panmunjon, está a 53 km de Seul.

torre com altifalantes
torre com altifalantes

Conforme nos aproximamos da linha divisória, o cenário fica diferente.

É frequente ver carros militares e a estrada tem de passar por várias pontes. Construções de cariz militar para servirem de bloqueio a uma eventual ofensiva norte-coreana. 

A via torna-se mais estreita, com canais ou valas de água nas proximidades e cercas de arame.

Surge um vale e lentamente um som estridente. Palavras, palavras ininterruptas que são debitadas dos de uma torre que está no lado da Coreia do Norte. A propaganda artesanal.


Não se vêm habitantes locais. Teriam uma vida desgraçada com esta poluição sonora.
Mais próximo de Panmunjon, há vários check points. O controlo é feito por militares da Coreia e dos EUA. 


militares de vigia
militares de vigia

Chegados à zona de demarcação o ambiente é muito estranho.

Para além das casas azuis de madeira, está um edifício de pedra, alto, com uma longa varanda no topo. Alguns norte-coreanos têm binóculos.  Eles estão também a ver a linha pintada no chão e pavilhões em cima. A linha divide exactamente os pavilhões a meio.
Na esquina, de um lado, um militar está estático. Tem uma das mãos junto à arma. Olha fixamente para o outro militar que se encontra à sua frente. Também ele com a mesma pose e com o mesmo gesto bélico. Não há grandes diferenças entre eles. Apenas na farda.

No meio uma linha escura. 

São três pavilhões e a cena repete-se em cada um.

Entre este dramatismo, soldados e oficiais das duas Coreias e dos EUA passeiam com grande à vontade. 


No interior dos pavilhões a história não é muito diferente.

A regra é a simetria. Em tudo.
Se nas conversações uma das partes traz um oficial com determinada patente, do outro lado deve haver igual correspondência.

A mesa onde se sentam está proporcionalmente dividida entre a linha imaginária. A mesa é lisa e ao lado tem cadeiras de madeira. O mesmo número e com a mesma disposição em cada um dos lados.
No inicio,  a delegação de um dos lados, trouxe uma bandeira e colocou-a em cima da mesa. A outra recusou. Também tinha de ter bandeira. Trouxe uma mais alta. Novo impasse. Teve de se definir uma regra. Tamanho, colocação... absolutamente igual. O mesmo com microfones e possibilidade de gravação.

Quem nos conta estas histórias é um oficial norte-americano.
Ao mesmo tempo, no exterior, aproxima-se de uma janela um militar e observa atentamente. No outro lado, pouco tempo depois, a mesma cena.

É surreal. A reacção é contraditória.
|Por um lado, a estupidez humana, com homens em forma de estátua a apontarem uns aos outros o ódio e a ameaça bélica. Por outro lado, dá vontade de sorrir perante a cenografia ridícula, pior do que a recriação de um duelo nos westerns.
Esta zona não é de acesso fácil a turistas. No entanto, a partir de Seul há visitas organizadas.

Nessa noite fomos jantar a Myeongdong.
O principal objectivo era aproveitar a oportunidade para compras.

Várias ruas, com lojas de um lado e outro. Muitas das montras com os mais variados produtos.

As roupas foram as nossas preferidas. A admiração foi para a grande variedade de vestuário em pele.

Não havia muita gente ao final da tarde. À noite até se podia passear com grande facilidade, sem qualquer receio ou incómodo.
Pode ver aqui como era esta zona em 1993. Não tem nada a ver com o ambiente de hoje.

Daejon
Tower of Great Light 

No dia seguinte fomos à Expo 93. Em Daejon (ou Taejeon)
O evento tinha um significado especial para os sul coreanos. Era a primeira feira internacional realizada após a independência e marcava a prosperidade que o país estava a atravessar e era catalogado como um dos quatro tigres da ásia.
Quase uma década depois voltou a ter o mesmo tipo de evento, a Expo 2012 em Yeosu

Daejon fica a quase 170 km de Seul.
A deslocação foi num autocarro e deu para ver como a Coreia estava a deixar de ser um país pobre. 
Muito industrializada, com imensos carros e carrinhas a circular nas vias rápidas. Poucas zonas rurais. A maior parte dos agregados populacionais tinham uma dimensão considerável.

A Expo 93 era igual a muitos outros eventos deste género. O epicentro visual e, também o ícone, era a Tower of Great Light .
Era um espaço amplo, de 25 hectares, com muitos visitantes. A particularidade que mais registei é uma das marcas orientais: a simpatia do anfitrião, o prazer e o requinte de receber visitantes. Tudo muito bem cuidado, cordialidade e atenção na resposta a qualquer pergunta. Em última instância, um sorriso.


Daejon
Daejon

O tema da exposição, "The Challenge of a New Road of Development" tinha também a ver com a imagem que a Coreia pretendia transmitir à comunidade internacional.
A arquitectura não era, por isso, tradicional. Pelo contrário, edifícios modernos, com materiais recentes. Alguns tinham uma inspiração oriental mas a ideia central era projectar a imagem de modernidade, domínio da ciência, tecnologia e cosmopolitismo.

Alguns dos ícones da Expo de 93 perduram na comunicação da cidade e o espaço é hoje um parque.
O regresso a Seul foi já de noite.
Alugámos uma carrinha mas o homem achou melhor parar.

Dormimos num hotel à beira de estrada. Numa estação de serviço.

Passava da meia noite e não havia alternativa. Um quarto muito, muito pequeno. Armário e cama de madeira com muitos anos de uso e um telefone que raramente funcionava. O contrário da imagem que projectavam em Daejeon.
A dormida foi curta. Obrigatório madrugar para partir de manhã para Tóquio.