Estive duas vezes nas Maldivas e ambas de improviso.

A primeira foi numa escala da Singapura Airlines. Não fazia a mais pequena ideia de que parava em Malé.

Fantástica a experiência de aterrar numa ilha em que se vê apenas mar de um lado e doutro do avião.

Maldivas
Maldivas

Pouco antes da aterragem e depois da descolagem, dá para ver pequenas ilhas a quebrar o azul marinho do Oceano e uma tonalidade muito clara da água ao aproximar-se da terra. O arquipélago é constituído por 1.190 ilhas com corais, das quais, 200 não são habitadas.
Fiquei fascinado e lamentei desconhecer a existência da escala. Se soubesse, ficaria pelas Maldivas alguns dias.
A segunda vez foi também uma passagem de improviso.
Devido à forte instabilidade politica que se vivia no Sri Lanka, deixámos Colombo a caminho de Malé.

O bilhete de avião, ida e volta, custou 120$USD.

Depois de um dia passado no aeroporto de Colombo aterrámos em Malé às 23h.
A viagem demorou duas horas e meia.

Pela quinquagésima vez tivemos de abrir as malas.

Os serviços do aeroporto fecharam de imediato.
No exterior muitos locais ofereciam os seus serviços aos turistas. Falavam inglês e ofereciam cartões.
aeroporto fica na ilha de Hulhule. Para se conseguir alojamento tinha de se ir para Malé (hoje, em 2014, já existe alojamento na ilha e também tem hidroaviões). Ficava noutra ilha.
O transporte era em barcos rudimentares, como também o cais que não era nada eficiente. Para se entrar nas embarcações era necessário alguma perícia.


Nada estava programado. Nem consulta prévia, nem leituras de guias.  Tarde, sem qualquer ideia e com o aeroporto a fechar, fomos obrigados a escolher o alojamento com rapidez.

Tallinn Guest House
Tallinn Guest House

A escolha foi a Tallinn Guest House.
Não porque o cartão fosse o mais bonito, o preço, as explicações. Nada disso.
Apenas porque o homem tinha um aspecto razoável em comparação com os restantes. 
Acertámos.
O dono da estalagem era muito simpático e prestável. A Tallinn, embora sem grande aprumo ou luxos, era aceitável e asseada.

A casa ficava numa rua estreita. Depois, verificámos que quase todas as ruas de Malé eram estreitas e sinuosas.
O acesso ao quarto era pelo quintal.

A noite foi agitada.
Grandes estrondos no sótão e o barulho de algo que se mexia constantemente. Estes barulhos, fortes, eram frequentes.
A noite foi quase em branco.
A meio da manhã, quando do pequeno almoço o dono da estalagem explicou-nos. Com uma vontade enorme de rir. Os estrondos eram cocos que caiam no telhado. Por causa do vento e da chuvada que fustigou a ilha durante a noite. Quanto ao barulho de algo que se mexia constantemente, devia ser o gato que também não dormiu devido ao barulho.

Nessa mesma noite, ainda mais tarde, chegou à estalagem um turista alemão que visitava as Maldivas pela segunda vez.

Sobre o programa da nossa estadia, o nosso anfitrião deu-nos alguns conselhos.
Os agentes a contactar, as deslocações... Mas só depois do almoço porque até lá estava tudo fechado. Era sexta-feira e os habitantes são quase todos islâmicos.

Para aproveitar a manhã fomos dar um passeio pela cidade.
as ruas estavam praticamente desertas. As lojas todas fechadas.

Mesquita de Malé
Mesquita de Malé

De vez em quando ouvia-se o chamamento para a oração dos altifalantes da mesquita.
As casas eram de um único piso, quase todas brancas e o comércio rudimentar.

A pé, percorremos o centro da cidade, até ao outro lado de Malé. Um hotel e várias agências de viagens. Tudo fechado.

Pelo cais regressámos ao centro. Na avenida principal fica o palácio Mulee-aage, o museu e a mesquita Hukuru Miskiyy. Devido a um golpe de estado, poucas semanas antes, esta zona estava cheia de militares e eram bem visíveis os buracos nas paredes do palácio, do quartel e em alguns muros.
Estes edifícios estavam numa rua de terra batida. Não encontrámos uma única via asfaltada.

Os edifícios do palácio e da mesquita eram muito bonitos. Ornamentados, a mesquita com muros de coral. Faziam um contraste enorme com as ruas cheias de pó.
Devido ao sol que começou a apertar, apanhei um escaldão nos ombros.
Era tempo de almoço mas os restaurantes estavam todos fechados.
Desistimos e fomos para a estalagem.
Mais de uma hora depois, nova tentativa em no centro de Malé para almoçar. Os restaurantes continuavam encerrados.
Só no outro extremo, conseguimos finalmente um lugar com as portas abertas. O restaurante do hotel. O prato foi de peixe. Bem confeccionado mas o que estava divinal foi a papaia com uns pingos de limão.  Ainda hoje me lembro do prazer ao saborear a papaia.
Eram umas quatro da tarde quando finalmente abriram algumas agencias de viagens.
Pouco interessados na nossa presença.
Só fomos atendidos depois de uma longa espera.
Os preços eram muito caros. os alojamentos mais baratos ficavam nas ilhas mais distantes, mas a diferença de preço era anulada com o custo do transporte. Muitos dos resorts tinham instalações sanitárias coletivas. Nesta altura, em que o turismo estava a nascer nas Maldivas, eles vendiam apenas a praia, as palmeiras e o mar. Com o boom do turisto registou-se uma grande evolução e em 2014 as maldivas têm 150 resorts em todo o arquipélago.
Desiludidos, decidimos regressar ao Sri Lanka. Talvez a situação política tivesse melhorado.
Nesta sexta não era possível comprar bilhete. O aeroporto e o escritório da Air Lanka também estavam fechados (hoje há muitas mais companhias aéreas que fazem escala nas Maldivas).

Passámos o resto da tarde a conversar com o dono da estalagem. Explicou-nos que os preços nas maldivas eram superiores aos da região porque tudo era importado e ainda por cima com transporte de barco.
A pesca, alguma industria de vestuário e o turismo eram as principais receitas do arquipélago. No incio deste século a taxa média de crescimento económico tem sido de 10% e o turismo registou um boom.

Por outro lado, havia falta de mão de obra (em 2014 as Maldivas tinham 350 mil habitantes). Recorriam a indianos mas parecia não gostarem muito deles.
Sobre a recente tentativa de golpe de estado, alguns dias antes já havia um rumor e não foi uma grande surpresa. No entanto, segundo nos disse, a população não estava empenhada em mudar de regime ou sistema político (a grande mudança teve lugar com a crise de 2011/2012). Há problemas mas não querem entrar em conflitos, muito menos em conflitos internos.
Interrogou-nos sobre Portugal que era bem conceituado nas Maldivas mas que se deixou de falar. Fomos os primeiros ocidentais a chegar às Maldivas (em 1558 até 1573) e, contrariamente aos ingleses, o nosso interesse era o comércio, não a posse das terras.

A noite foi passada com mais um passeio em Malé.
É uma cidade muito pequena.
Aqui tem a lista das principais atrações
Percorremos quase sempre as mesmas ruas. 

Com o anoitecer muitas pessoas saíram à rua.

Venda de peixe
Venda de peixe

Frente ao cais, num pequeno espaço coberto, vendia-se peixe.
A grande maioria dos presentes estava apenas para conversar. Não se incomodavam com a presença de máquinas fotográficas.
Nunca fomos interpelados pelos locais. Olhavam e passavam indiferentes.
Também com o lvançar da noite começaram a aparecer turistas.
Estavam alojados em Malé e passavam o dia em outras ilhas. Eram poucos.
A maior parte segue para as ilhas durante alguns dias (essencialmente japoneses, o que também explica os preços) e quando regressa vai directamente para o aeroporto.

Taxa de aeroporto
Taxa de aeroporto

Male era mais um local de passagem. Na altura, também não tinha capacidade hoteleira. Hoje há um número muito maior de hotéis e de cadeias internacionais.
O jantar foi num restaurante virado para o mar, no cais, mas foi banal.

No dia seguinte, logo pela manhã, o dono da estalagem comunicou-nos que conseguiu marcar as nossas partidas.
O avião deixou as Maldivas à hora de almoço com destino a Colombo mas antes tivemos de pagar a taxa de aeroporto em dólares. Não aceitavam outra moeda. Nem a local. Esta taxa foi mais tarde englobada na estadia e regressou a partir de 2012,  custava 25$USD, mas um tribunal anulou entretanto esta medida.