Sri Lanka - Dezembro de 1988

Domador de serpentes
Domador de serpentes

Era grande a nossa expectativa da visita ao Sri Lanka.

As referências que nos foram dadas eram excelentes. Por outro lado, depois de uma viagem cansativa ao Nepal e Índia, escolhemos o Sri Lanka para descansar. Praia, comer e dormir.

Não foi bem assim.


Além da permanente guerrilha dos Tamil na zona norte, realizaram-se eleições dois dias antes e o país estava num caos.

Num jornal nepalês foi noticiado dezena de mortos no processo eleitoral.

Depois de uma noite passada no avião, chegamos a Colombo  bem cedo, eram 6.30h.
Carimbo no passaporte e a expectativa era seguir viagem. Não, fomos impedidos de seguir.

Um empregado dos serviços de turismo disse-nos que, embora tivéssemos uma reserva para Bentota 64 km a sul de Colombo, não era possível fazer a viagem.

Registava-se muita violência, não havia energia eléctrica e, na sequência de ameaças de um grupo extremista, os trabalhadores ficaram em casa e não foram para os hotéis



Passado algum tempo, o mesmo impedimento foi colocado a outro casal que preferiu seguir para as Maldivas.

Ficámos no aeroporto a pensar em alternativas.

Fomos assediados, vezes sem conta, por um agente turístico que nos apresentou mil e uma possibilidades de seguirmos viagem.

Eram 10h quando decidimos também tentar as Maldivas. Já tinha estado em Male e fiquei deslumbrado. 

O escritório da  Air Lanka (agora designa-se SriLankan Airlines) ficava no edifício das partidas.

Quando saímos do local um policia acabava de dar um murro num homem que se recusava a tirar a motoreta do local onde a tinha estacionado.

À entrada do edifício das partidas estavam mais dois polícias, fortemente armados, que verificavam os bilhetes.

Quando chegou a nossa vez explicámos que não tínhamos bilhetes, tinhamos chegado ao princípio da manhã e pretendíamos avaliar a possibilidade de seguirmos para as Maldivas. Foram simpáticos. Deixaram entrar e ainda guardaram os sacos de viagem.

Bilhetes para Male às 23h. Estava encontrada a alternativa.

Quando fomos buscar a bagagem os dois polícias perguntaram pela nossa nacionalidade. Respondemos que somos portugueses. Um largo sorriso. Os dois polícias começaram a cantar uma canção com alguns fonemas que nos eram familiares. Português arcaico. Quando terminaram ficaram curiosos se conhecíamos a canção. Não. Mas, perante o desalento dos dois homens, acrescentámos que devia ser uma canção antiga e que algumas palavras eram muito parecidas com o português actual.

Um dos polícias perguntou o nosso nome. Quando falei em Santos os dois deram uma gargalhada. Um deles também era Santos.

Dias depois, verificámos que em muitas lojas estão escritos nomes de origem portuguesa como Santos, Sousa…  

Um dos polícias cravou-me um cigarro e aconselhou um lugar no aeroporto para descansarmos e guardar a bagagem. Apareceu mais tarde para cravar mais cigarros. Um maço de Marlboro.

O dia foi passado no aeroporto. Pouca gente. Só à noite apareceram alguns turistas. As instalações não eram grandes mas o aeroporto parecia recente.


Regressamos a Colombo a 24 de Dezembro. Após um breve retiro nas Maldivas.

Apesar das garantias de que o visto dava para várias entradas, tivemos de protestar nos serviços de emigração porque não nos queriam deixar entrar. 
O protesto resultou.

Desta vez fomos nós a procurar os serviços de turismo. O nosso contacto foi Nimal G. da Necho Travel. (ainda existe)

Praia de Mount Lavinia
Praia de Mount Lavinia

A opção foi para uma praia a sul de Colombo, a cerca de 60 km.
Mount Lavinia
tinha boas praia, o hotel era bom… argumentos convicentes.

Nimal G. adiantou-nos que, devido à guerra civil,
os preços eram muito baixos e que os agentes de turismo ainda faziam descontos devido a uma indicação do governo, para evitar a fuga de turistas. Outro argumento convincente (e confirmado mais tarde).
Fizemos uma reserva para vários dias.

necho travel
necho travel

Quanto ao transporte, por razões de segurança, o melhor era de carro. Era perigoso de comboio ou autocarro porque os ataques eram indiscriminados, alvejavam todos os que pudessem seguir na camioneta.  
Não precisou de dizer mais.
Fui de imediato convencido que lhe tinha de pagar o serviço apesar de, até à data, nenhum ataque ter atingido turistas.

Seguimos para Mount Lavinia numa carrinha.


Os arredores de Colombo não captavam interesse. Pequenas casas, velhas, situadas ao longo da estrada e passeios em terra batida.

Em alguns cruzamentos estávamos no meio de um labirinto de carros, motoretas e pessoas. 
Colombo já tem um ar diferente. Vivendas de um ou dois pisos, jardins, protegidas por muros. Um ambiente mais calmo.

De regresso à estrada e a casas pobres no entanto, não tanto como na Tailândia ou nas Filipinas.

Mountt Lavinia
Eram 17.30h quando chegámos a Mount Lavina.

Mount Lavinia
Mount Lavinia

O hotel era melhor do que as expectativas.
Muito bonito.
Com arquitectura colonial e, no centro, ainda no exterior, um repuxo onde frequentemente estava um empregado muito simpático. Trajado a rigor e sempre disponível para uma fotografia.  


O Mount Lavinia Hotel tem uma história fantástica. Pode leaqui
é nomeado governador do Ceilão e constrói aqui uma mansão. Em 1806. 
O edifício com traços coloniais era o símbolo do poder e da autoridade. 
No entanto, Sir Tom também tinha as suas fraquezas. 
Apaixonou-se por uma dançarina, filha de português e de mãe do Sri Lanka. Lovina Aponsuwa era muito bonita.

Devido aos costumes e preconceitos, vivia próximo da casa do Governador e acedia através de um túnel.
O romance foi longo e ficou registado com o nome de Lavinia na casa do governador.  
A cidade acabou por adoptar o mesmo nome.




O hotel está situado mesmo ao lado da praia, num pequeno istmo.

Vista da falésia
Vista da falésia

De um lado, um extenso areal. Do outro lado, uma pequena falésia.
Era para aqui a vista do nosso quarto, com uma varanda comprida.

O hotel tinha vários pisos, com um número significativo de quartos, mas a lotação estava longe de esgotada.

Nesta mesma tarde fomos tomar um banho na praia.
Ambiente calmo, areia branca e água morninha.

Mais calmos e satisfeitos, fomos preparar-nos para a ceia de natal. 

O restaurante estava decorado e, desta vez, contava com a presença de pessoas desta região. Vestiam trajes locais, discretos e foram uma companhia agradável, embora distantes.

Alguns turistas escolheram também a sua melhor roupa e o cenário era agradável.

A ementa também correspondeu. Champagne com natas, puré frito e um creme de licor foram as novidades gastronómicas.

O serviço foi igualmente eficiente. Estava a ser supervisionado por um dos “patrões” da companhia proprietária do hotel.

A noite terminou com alguns turistas e locais (que se retiraram mais cedo) a dar um pezinho de dança.

O dia seguinte foi o começo de uma agradável rotina.

Pequeno almoço e praia.

Praia de Mount Lavinia
Praia de Mount Lavinia

Ao longo do areal estavam várias estruturas para proteger do sol.
Mal  chegados à praia um empregado transportava as cadeiras e toalhas. Depois, espaçadamente, interpelava-nos para saber se queríamos alguma bebida fresca.

Num destes diálogos, um dos empregados, vestido com um batik azul, meteu conversa e, depois de saber a nossa nacionalidade, ficou muito contente e até nos disse que recebia correspondência de portugueses.  
Prometeu que no dia seguinte nos mostrava alguma dessa correspondência – o que nunca sucedeu.


A temperatura da água do mar estava agradável e a sombra protegia-nos do sol forte.

A digestão do almoço exigia longos passeios. Um dos caminhos era no próprio hotel.
Percorrer as galerias e conversar com os trabalhadores.

Um longo corredor com acesso à praia tem várias lojas, essencialmente joalharia.
O Sri Lanka tinha um significativo comércio de pedras preciosas. O ponto de venda destinava-se a turistas e os preços não eram muito acessíveis.
Além das joalharias havia ainda uma loja de souvenirs e uma casa de antiguidades.
A barbearia, à antiga, devido ao escasso número de turistas, estava encerrada.
Bem gostaria de experimentar, mas não foi possível. 

Apesar da instabilidade no Sri Lanka, vivia-se um ambiente calmo no hotel.

segurança
segurança

Eram poucos os acessos ao hotel e à praia.
Dia e noite seguranças privados vigiavam estes acessos. De farda verde escura e aramados, eles eram uma presença constante. 
Por vezes colocavam-se no areal. 
Era o suficiente para as vendedoras de batiques não se atreverem a passar. Ficavam lá longe.
Esticavam ao vento os tecidos, aguardando que o apelo surtisse efeito junto dos turistas. Faziam mais sucesso a venderem tshirts, calças, vestidos e toalhas.
Falavam bem inglês e não foram insistentes. 

Os preços tinham de ser regateados.

domador de serpentes
domador de serpentes

Menos frequente foi a presença do domador de serpentes.
Discreto, tirava a tampa onde estava alojado o animal e a música chamava a serpente e os turistas.  


A praia tinha pouca gente. Era sossegada.

Nos dias em que o tempo não apelava à praia, a alternativa era a piscina. Não era muito grande e tinha água limpa.

À noite os buffets eram terrivelmente sensacionais. Destacava-se o doce de ameixa.


Devido à insegurança foram poucos os passeios no exterior.

A povoação nas proximidades do hotel era pequena.
A frente à beira mar estava limitada pela linha do caminho de ferro.
Atrás, a cidade crescia pela colina. Tinha um largo com muitas pessoas e as ruas estavam sempre cheias de motos e carros.

O tsunami de 2004 afectou muito esta região mas, relatos da altura, indicam que o Hotel não foi atingido.


KANDY

No dia 29, dois dias antes da passagem de ano, o dono da Necho Travel, conforme o combinado, apareceu em Mount Lavinia para nos levar ao centro da ilha.

O objectivo era visitar Kandy. 
A cidade das montanhas.

No mesmo dia a viagem terminava em Negombo.


A surpresa é que Nimal G. levou a mulher que aproveitava a viagem para visitar familiares em Kandy. De facto, não dei por ela ter feito alguma visita. Foi só para passear. Valeu a pena, foi simpática e ensinou-nos alguns dos costumes locais.



Elefante numa estrada
Elefante numa estrada

Foi um dia inteiro de viagem. O que, no Sri Lanka, corresponde a um número sem fim de sustos. Dois carros para lá, dois carros para cá. Só quando estão quase a chocar é que encostam. Esta regra aplica-se igualmente  nas curvas.
Os turistas que alugam carros, passadas duas, três horas, vão fazer a devolução.
Dizem que é impossível conduzir, testemunhou Nimal.




A partida foi de manhã e a primeira paragem foi numa fábrica de batiks.

É um processo moroso. Basicamente consiste em desenhos feitos no panos. Algumas partes, conforme o desenho, eram cobertas de cera. O pano era submergido durante algum tempo numa tinta. Eram várias etapas e muda-se de tinta. A cera era tirada com diluente. Os tecidos ficavam, assim, com cheiro forte a petróleo. 

Estes tecidos eram usados para vestuário, panos e telas.




A paragem seguinte foi numa localidade à beira da estrada. 

A mulher de Nimal decidiu parar para comprar doces. Provei alguns e tinham muito açúcar.


Ao longo do caminho, essencialmente em cruzamentos várias pessoas vendiam aperitivos.
Era gente pobre. Viviam em casas pequenas. Eram pequenos aglomerados de população. Muitas casas estavam espalhadas pelo campo.
Era um manto verde, repleto de árvores.  
Nos vales eram os arrozais.


Ao longo da viagem verificámos que as culturas variavam muito de região para região.
Em alguns locais as papaias eram esverdeadas e mais à frente ficavamm alaranjadas.



Uma outra paragem. Numa fábrica de chá, nas montanhas, um pouco antes de Kandy. 

Era uma fábrica velha e com um trabalho muito artesanal. Aproveitavam a corrente de ar, próximo de uma porta e lançavam o chá de um ponto mais alto. O vento fazia a separação dos materiais.
O cheiro era muito forte, pestilento. 





Antes de se chegar a Kandy
percorremos vários kilómetros, sempre a subir.

Os motores aquecem. Uma oportunidade de negocio. Numa ravina, onde havia uma fonte, um homem com uma longa mangueira introduzia água nos radiadores dos carros.

Para os esfomeados ou com sede, enquanto se faz a paragem, o homem da água tinha uma barraca onde vendia laranjas e refrescos.



 

Kandy era uma cidade pequena e ficava num vale cercado de verde.  

Destacava-se um lago na zona central.

Kandy era tipicamente uma cidade de província. Sossegada e limpa, ao contrário do bulício de Colombo.




No centro da cidade havia um jardim e, ao lado do lago, um monumento.

Templo do Dente de Buda
Templo do Dente de Buda

 



É onde está uma relíquia, um dente de Buda. Segundo a lenda, quando da presença dos portugueses no Ceilão terão levado o dente para Goa. Trituraram o dente e deitaram o pó no mar. Mas, o dente retomou a sua forma e voltou para o Sri Lanka.

A lenda tem uma ligação com a realidade.

Os portugueses destruíram o templo em meados do séc. XVI e foi reconstruído no final do mesmo século. 


A história de Kandy tem uma forte ligação a Portugal e ao seu império colonial, no séculos XVI e XVII onde os portugueses sofreram pesadas derrotas.


Kandy
Kandy

 

Kandy era a capital religiosa para os budistas. 
O templo era um conjunto de vários edifícios.
A arquitectura era tipicamente hindu. 
Tinha uma luminosidade suave e  o ponto principal era um longo corredor que terminava com um Buda. Era onde faziam as oferendas.
A cor dominante era o dourado. Muitas figuras da religião hindu decoravam o edifício que, de fato, era muito bonito.
O exterior era em calcário e um dos extremos ficava junto ao lago.

Alguns trabalhadores faziam o restauro de parte do edifício.


A segurança e os trabalhos de restauro deviam-se a uma visita que o recém-eleito primeiro-ministro iria fazer nos dias seguintes. 

Mais tarde, soubemos que a visita não se efectuou porque um carro-bomba explodiu em frente do templo.


Devido à chuva fomos de carro até uma elevação do outro lado do lago.
A vista era magnífica.



O almoço foi já na saída de Kandy.



Nimal e a mulher pediram arroz, lentilhas... tudo muito picante. Nós optamos por pratos mais suaves. Eles comeram com as mãos, nós fomos fiéis aos talheres.



Antes, enquanto se aguardava pela comida e se serviam aperitivos, conversámos sobre a situação de guerra que se vivia no Sri Lanka. 
Ambos salientaram que os principais prejudicados eram as pessoas, o povo. 
Perguntou-nos também sobre Portugal. 
Estranhavam que os portugueses foram dos primeiros ocidentais a chegar ao Sri Lanka e agora era um povo desconhecido.

Mais tarde, deu-nos a conhecer que, alem dos nomes, os portugueses deixaram  muitos outros vestígios.

Ao longo da viagem Nimal já nos tinha questionado sobre a presença portuguesa. Quando fomos visitar o jardim botânico levou-nos a uma árvore e perguntou se conhecíamos. Era um sobreiro. As bolotas são dadas aos animais, essencialmente aos porcos. No Sri Lanka era diferente. Quem as comia eram as pessoas. Perplexos e meio envergonhados, acrescentámos que em Portugal algumas pessoas também comiam as bolotas. Já foi tarde. Nimal, bem humorado, explicou-nos o contexto. No inicio, quando os portugueses levaram as bolotas para o Sri Lanka, os locais deram primeiro aos animais. Para se certificarem de que não eram venenosas. 


NEGOMBO

A viagem para Negombo já foi cansativa.

Só ao principio da noite é que chegámos.

Praia do Royal Oceanic Hotel
Praia do Royal Oceanic Hotel

Logo no hall de entrada ouvimos um barulho estranho. Era a piscina do hotel que ficava no piso inferior. Ao lado do restaurante .


O dia seguinte foi passado na praia que era também reservada e vigiada por seguranças. 

Comparando com Mount Lavinia a praia era mais pequena e tinha mais turistas.
Ao lado do hotel também havia mais lojas e restaurantes. 

Esta zona foi afectada pelo Tsunami de 2004 com uma vaga de 20 pés de altura.

Apesar da insegurança demos alguns passeios por aqui.


Uma vez jantámos no hotel. Tinha alguns turistas, não muito novos mas atrevidos. Um deles apalpou o traseiro de uma empregada. Ela nunca mais se aproximou desta mesa.

A distância entre Negombo e Colombo é de cerca de sete quilómetros.


Como combinado, um dos motoristas da Necho Travel levou-nos ao aeroporto.

O mais complicado foram as medidas de segurança.