Nascer do sol em Uyuni
Nascer do sol em Uyuni

Voo às 7h na Amaszonas. O check-in tem de ser às 6h.
Os passageiros chegam antes da abertura do único desk do aeroporto.
Está muito frio. Fuma-se um cigarro no exterior e nota-se bem o gelo. A diferença de temperatura não é grande. Apesar dos aquecedores também está frio no interior das instalações.
Começa o nascer do sol. Do aeroporto vê-se ao longe Uyuni e uma montanha.
Um grupo de jovens e alemães enchem o avião.

Vista aérea do Tunupa
Vista aérea do Tunupa

A viagem faz-se bem. A vista é espetacular. Despedimo-nos do Salar. Do céu percebe-se bem a extensão e o serpentear deixado pelos rodados dos jipes.
Outra paisagem fantástica é do Tunupa. Lindo.
Chegada a La Paz, ao aeroporto em El Alto e correria de táxi para a zona do cemitério. Custou 60 bs. Foi caro mas não deu para regatear.
De novo a visão de uma cidade de tijolo. Milhares de casas com tijolos à vista. La Paz tem um formato de concha. A zona do cemitério não é muito diferente de El Alto.
O teleférico atravessa toda a cidade. Deve ser deslumbrante para fotos. Vários guias dizem que La Paz é uma cidade desinteressante, não tem uma âncora. Um motivo forte para ser visitada. Decidi não ficar. Ouvi vários turistas fazer a mesma pergunta: “ vale a pena visitar a cidade?” 
Depois do que vi, acho que fiz mal em não ter ficado uma noite.

La Paz
La Paz

Chegado ao cemitério o taxista deixou-me no meio de um emaranhado de vans e vendedores de bilhetes. 

Muito barulho e muita gente. Inóspito para um estranho.
Encontrei um autocarro que partia às 9h para Copacabana. O lugar era à frente, ao lado de um boliviano. Com as duas mochilas e porque queria tirar fotos, fui para os últimos lugares que estavam praticamente vazios.

Vendedora em El Alto
Vendedora em El Alto

Nova passagem por El Alto. Uma paragem de vários minutos. Angariadores procuravam mais clientes. No meio da rua. No passeio várias mulheres vendiam alimentos, gelados, roupas e frutas. Tudo num frenesim.
Entraram vários passageiros. Uma jovem mãe veio para o lugar onde eu estava. Disse-me para continuar no mesmo sitio que ela sentava-se o lado. A criança ainda não sabia falar. À despedida, o pai comprou-lhe um saco com um líquido. Não serviu de grande coisa. A criança não tinha grande vontade. Quem o bebeu foi a mãe. Dei-lhe duas bolachas mas, quem também as comeu foi a mãe. Mais tarde. Dei-lhe o resto da embalagem. Ela não devia ter mais de 18 anos. Muito jovem. O tipo de roupa que usava e o tom da pele evidenciava que devia ser andina.. Quando da travessia em Tiquina ela não saiu do autocarro e nunca mais a vi.
Comprei smarties para a criança mas quem acabou por comer um saco fui eu. A outra embalagem foi para um dos filhos do Jorge, o dono do Mirador del Titikaka.

Autocarro a passar estreito de Tuiquina
Autocarro a passar estreito de Tuiquina

A  paragem em Tuiquina demorou alguns minutos. À espera do autocarro. O "trânsito" estava intenso.
Na verdade, a praça central estava cheia de gente. Alguns com fato domingueiro.
Muitos locais e poucos turistas.
Muita gente a passear, outros a vender souvenirs e fruta. Comprei um cacho de bananas para matar a fome. A senhora, de idade, ainda me ofereceu mais uma. Eram enormes e castanhas.

Mulher em Tuiquina
Mulher em Tuiquina

No meio da praça a sombra do coreto era muito procurada, Atrás vários rapazes jogavam matraquilhos.
Daqui via-se uma rua apinhada de gente.
Os mais idosos refugiavam-se nas sombras das pequenas casas.

Na primeira viagem de autocarro o homem acelerava. Não havia muito movimento porque era domingo.

Estava sol e algumas mulheres lavavam roupa. Era estendida em cima de plantas o que provocava um mosaico colorido.

reunião comunitária
reunião comunitária

Muitas famílias trabalhavam na agricultura. Outras juntavam-se, formavam um círculo. Com algumas pessoas deitadas e outras sentadas.   


Ainda do lado da Bolívia, em algumas localidades, reuniam-se os membros das comunidades locais. 
Numa outra localidade, jovens músicos de uma orquestra desfilavam pela rua.
Do lado peruana havia a azáfama da agricultura, trabalhos caseiros como a lavagem da roupa. Mas nada mais.

Casas coloridas
Casas coloridas

É curioso que a fronteira marca também outras diferenças, essencialmente na construção das casas.
Do lado boliviano há mais habitações arranjadas e pintadas e os tijolos são predominantemente cinzentos.
Do lado peruano, pouco depois da fronteira, há casas mais coloridas e as habitações são mais dispersas. Espalham-se pelos vales.
Conforme nos aproximamos de Puno, voltam a cor dos tijolos e a concentração desordenada, sem arruamentos. Segundo o David, as pessoas não têm dinheiro para pintar as casas e acabam por deixar os tijolos à vista. 


Casas com módulos
Casas com módulos

Outra particularidade das casas mais recentes é que têm vidros espelhados. Provocam um efeito estranho. O avermelhado dos tijolos, cores mortas que são quebradas pelos reflexos intensos nos vidros.

A arquitetura de muitas habitações é constituída por um piso térreo e em cima  módulos quadrados. Conforme a família cresce ou há mais dinheiro, a casa também vai aumentando. São poucas as habitações com mais de dois pisos. Mais nas cidades.

Titicaca
Titicaca

Parte significativa da viagem é andar à volta do Titicaca.
Do lado boliviano o lago tem menos algas. Aqui e ali há um pequeno porto com embarcações de recreio.
Pontualmente encontram-se também pequenos viveiros de peixes. A truta é um deles e é cozinhada de várias formas. Em Copacabana comi cozinhada no forno, em Puno era frita. Também fazem a vapor.

Agricultores
Agricultores

O lago dá uma forte ajuda à pecuária. Muitos terrenos servem de pasto para vacas, ovelhas e llamas.
Tudo serve para alimentar os animais. Até a erva situada na beira das estradas.
Mesmo nas montanhas, com declives muito acentuados, é local de pasto para vacas. Nem percebo como não caiem. Também é usual ver burros e cavalos. Cães há por todo o lado. Ao abandono ou com coleira atrás dos donos.
Pouco depois de se passar por Copacabana o horizonte é dominado pelos Andes. Serra com escarpas. A estrada corta as montanhas. Depois, quando nos aproximamos de Puno, regressam os vales. Com vastas zonas de plantações misturadas com casas, pequenas cabanas e animais espalhados por todo o lado.


Estrada alcatroada
Estrada alcatroada

A estrada é alcatroada. Tem apenas duas pistas. No entanto, tem de se pagar portagem. O taxista de Puno, o David, disse-me que é a “Carretera Panamericana”.  Estava enganado, (o David também não conhecia o Cristiano Ronaldo). A panamericana percorre quase toda a América do sul sempre pela costa, ao lado do mar.

Algumas vias estão a ser construídas e, noutros casos, são visíveis algumas infra-estruturas recentes.

Nos dois países o marketing governamental aproveita estas oportunidades para mostrar a obra feita. Do lado peruano há também uma forte presença da comunicação municipal. Em Puno o lema é: “Um governo sério e ativo”.
Do lado boliviano a situação é bem diferente. 
Quase toda a comunicação está centrada em Evo Morales. Frequentemente com a fotografia do Presidente boliviano. 
Desde a passagem do Dakar a pequenas obras de construção civil.

Para E., o guia no salar de Uyuni, Evo Morales é um bom Presidente. Tem feito muitas mudanças e uma das preocupações é salvaguardar a Bolívia de interesses estrangeiros que procuram apenas explorar os recursos naturais e os meios humanos.
No lado peruano a comunicação politica é mais competitiva e visível.
Devido à organização do sistema politico há candidatos para os mais diversos lugares: municipais, governadores, presidentes.

Murais sobre coca
Murais sobre coca

A forma mais usual de propagandear o nome dos candidatos é em murais. Em poucos quilómetros, à beira da estrada, encontram-se dezenas de nomes pintados nas paredes das casas e nos muros. Quando se muda de município, surgem novos nomes. 

A mensagem está muito centrada nos valores éticos e na eficácia da ação. Do lado boliviano acrescem as referencias nacionalistas.
Estas inscrições quebram muitas vezes o domínio do castanho avermelhado dos tijolos.
No Peru é também frequente encontrar murais alusivos à plantação de coca,

A viagem entre La Paz e Puno foi feita em duas companhias de transporte.

Entre La paz e Copacabana utilizei um autocarro vulgar, com transporte de locais. Talvez seguissem na viagem apenas quatro turistas. Silenciosos, queriam passar despercebidos. Também não eram o centro da atenção dos companheiros de viagem. Se queriam saber alguma coisa, tinham de perguntar. O preço do bilhete era muito barato e não tinha extras.

A viagem entre Copacabana e Puno foi diferente. Era um autocarro para turistas da Titicaca Tours.
Sai de Copacabana às 13,30h. Em baixo, sacos cama. Em cima, bancos normais, com encosto para as costas e para as pernas. 

O autocarro estava lotado e seguia para Cusco. Muitos jovens e muitas conversas cruzadas. Brasileiros, colombianos, europeus, israelitas... a arca de Noé dos mochileiros. Alguns passageiros vinham do Chile, atravessavam a Bolívia e seguiam para o Peru.

Nas paragens mais relevantes aparecia um funcionário da Titicaca Tours que dava orientações aos turistas sobre os procedimentos a tomar. Nos locais onde ficavam passageiros também aproveitava a oportunidade par servir de angariador para tours ou alojamentos.
Muitos decidiram ficar em Puno para visitarem a ilha de Uros

Regressei à base. Ao Mirador del Titikka onde, com a ajuda do Jorge, reorganizei a viagem, designadamente o regresso a Lima com um voo da Lan a partir de Juliaca.
No hotel estava um casal de portugueses, um mexicano e o casal suíço que tinha visitado a ilha do Sol. Gostaram da visita e explicaram-me que estiveram mais horas, fizeram o tour pelo lado sul e a escadaria, que quase me matou de cansaço, eles fizeram a descer. Uma diferença que pode muda a opinião sobre o passeio.
Quanto a Copacabana partilharam o ponto de vista: feia, nada de mais. Uma rua e acabou.

Fotos da Bolivia